O olhar amoroso na alfabetização de jovens e adultos
Da experiência de Angicos (RN) às salas do MOVA-SP, veja como a alfabetização de jovens e adultos na perspectiva freiriana vai além de uma mera decodificação de palavras
Por Stephanie Kim Abe
A experiência em Angicos, interior do Rio Grande do Norte, em 1963, foi um dos momentos mais marcantes da carreira e da vida de Paulo Freire. Foi a partir dela que a sua metodologia de alfabetização de jovens e adultos passou a ser reconhecida, culminando no convite pelo então ministro da educação Paulo de Tarso para comandar uma ação nacional de alfabetização de adultos. O Programa Nacional de Alfabetização (PNA), criado por decreto no dia 21 de janeiro de 1964, tinha como objetivo alfabetizar 5 milhões de pessoas, mas não saiu do papel por conta do golpe militar que aconteceu em 1º de abril de 1964.
Mas a experiência já estava consolidada e a metodologia de Paulo Freire influenciou muitos movimentos da sociedade civil no Brasil e no exterior que trabalhavam e trabalham nessa perspectiva. Não à toa, quando chegou ao cargo de secretário municipal de educação de São Paulo (1989 a 1992), foi em parceria com eles que Freire implantou o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), que existe até hoje na capital paulista.
Em 1988, a cidade contava com cerca de 1,2 milhão de pessoas acima de 14 anos analfabetas. Iraci Ferreira Leite, formadora e liderança do programa, lembra que foram os movimentos da sociedade civil organizada que procuraram o diálogo com a Secretaria:
Foto: reprodução
O MOVA foi um movimento da sociedade para dentro da Secretaria, que tinha muito a ver com a experiência de Angicos – que, vamos lembrar, ocorreu fora do ensino formal. Paulo Freire achava que fora do espaço fechado da escola as pessoas poderiam ter um diálogo maior, e começar a alfabetização a partir da sua vivência. Quando ele foi nomeado, nós o procuramos para lembrá-lo que ele sempre acreditara na alfabetização de jovens e adultos e, dada a grande demanda, poderia fazer uma parceria com as organizações populares que já realizavam esse trabalho.”
Iraci Ferreira Leite
#100AnosPauloFreire
Acompanhe o nosso Especial #100AnosPauloFreire, que traz reportagens mensais sobre o patrono da educação brasileira ao longo deste ano, em homenagem ao seu centenário e em reconhecimento ao seu importante papel no pensamento e nas práticas educacionais brasileiras.
Educação popular que acolhe
Capa: reprodução
No livro O Educador: Um perfil de Paulo Freire, Sérgio Haddad conta como Freire costumava encarar e responder aos questionamentos da imprensa sobre evasão escolar e desempenho das(os) estudantes à época em que começou o seu mandato à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo:
Eu gostaria de recursar o conceito de evasão, as crianças populares brasileiras são expulsas da escola, é a estrutura mesma da sociedade que cria uma série de impasses e de dificuldades.”
Paulo Freire, citado em HADDAD, 2019, p. 2019
O autor continua explicando que, para Paulo Freire, “o padrão de exclusão social do país era profundamente injusto e antidemocrático, estigmatizando e desrespeitando a cultura e o modo de ser da criança nascida em setores desfavorecidos, produzindo nela um sentimento de incapacidade do qual era difícil se libertar. As crianças não saíam da escola por vontade própria, eram excluídas pela forma como a escola as tratava”.
Iraci entende bem o que é essa realidade na história dos(as) educandos(as) que entram para o MOVA. E, justamente por isso, as salas do Movimento tem particularidades que contrapõem com essa experiência que a maioria deles(as) tiveram na escola regular. Elas se encontram nos lugares mais vulneráveis da capital paulista, próximo às casas das(dos) estudantes, em igrejas, centros comunitários, empresas etc. As(os) educadoras(es) são, na maior parte das vezes, da comunidade, o que traz uma proximidade maior – e, claro, buscam acolher da melhor forma possível os(as) educandos(as). Como explica Iraci:
Ads(Os) analfabetas(os) ou semianalfabetas(os) têm um histórico de fracasso, de rejeição. Eles até têm um receio de se aproximar de uma escola. Mas no MOVA eles se sentem mais à vontade para realmente mostrar as suas dificuldades. A grande diferença é o olhar amoroso, como dizia Paulo Freire, que nós temos ao acolher esses educandos e educandas – e que faz com que muitos, apesar de alfabetizados, nem queiram sair da sala do MOVA.”
Gilberta Ferreira da Silva é uma das educandas do MOVA que, se quisesse, já podia ter saído e se matriculado em uma escola regular para continuar seus estudos. Mas ela continua frequentando as aulas, que acontecem na Paróquia Nossa Senhora Aparecida e são ministradas pelo Centro Popular de Defesa dos Direitos Humanos Frei Tito de Alencar Lima, no Jardim Miriam (zona sul de São Paulo):
Foto: arquivo pessoal
Pra eu voltar pra uma escola regular hoje, eu preciso entrar na 8ª série. Mas eu não me sinto segura, porque não adianta eu chegar lá e não saber acompanhar as outras pessoas. Então eu pedi para ficar mais um pouco no MOVA, pra me sentir mais segura. Mas eu vou tentar ano que vem.”
Gilberta Ferreira da Silva
Há quatro anos no MOVA, ela decidiu por essa forma de atendimento depois de ter estudado em uma escola da prefeitura. “Eles vão passando a gente de ano, mesmo sem aprender. E eu senti que eu não consegui aprender lá”, diz.
Desde que entrou no MOVA, ela sente que aprendeu muita coisa:
Eu aprendi o que eu não tinha aprendido na minha outra escola. Quando entrei, não sabia ler nada. Hoje eu consigo ler até que bem. Escrever é mais complicado, mas eu escrevo, faço conta. Eu pergunto para os meus filhos, um que já é formado e a outra que está para se formar: ‘eu estou aprendendo?’. ‘Tá sim, mãe’, ele responde.”
Gilberta Ferreira da Silva
Gilberta sabe a importância dos estudos e sonha com uma escola que a acolha como o MOVA a tem acolhido:
A gente sem estudo não é nada. Faz muita falta, por isso que eu acho que é muito importante. Por exemplo, vou mandar um currículo pra uma vaga de emprego, aí vão pedir pra preencher ficha, pedir histórico escolar. Eu gostaria de estudar em uma escola que eu fosse bem tratada, com paciência, que nem as(os) professoras(es) que eu tenho hoje, e que tivesse menos bagunça. A minha professora Eulânia é nota 10, e ela mesmo fala: ‘vocês têm que andar pra frente’. Eu tenho muita esperança que ainda vou conseguir ter um estudo.”
Gilberta Ferreira da Silva
Ação e reflexão constante
Uma experiência de sucesso de alfabetização de jovens e adultos, como a que aconteceu em Angicos, tem que, entre diversos fatores, partir da realidade das(os) estudantes. No caso da metodologia de Paulo Freire, que usa as chamadas “palavras geradoras”, elas devem partir da realidade dos(as) estudantes, como explica a formadora Iraci:
Esse processo precisa levar em consideração os saberes que as(os) adultas(os) trazem. Vamos lembrar que uma pessoa que já viveu 50, 70, 90 anos já tem uma leitura de mundo. Então não adianta querer reproduzir atividades que são dadas para crianças em alfabetização. Precisamos sempre nos perguntar: essa atividade levas(os) adultas(os) a refletirem sobre o quê? As atividades precisam ser desafiadoras e trazer essa perspectiva de emancipação e transformação.”
Iraci Ferreira Leite
É a partir dessa perspectiva que também trabalha a equipe do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) Perus I. O CIEJA é outra forma de atendimento à educação de jovens e adultos oferecida pela rede municipal de São Paulo, além do MOVA, do EJA regular e modular e dos Centro Municipal de Capacitação e Treinamento (CMCT). De acordo com dados do IBGE, em 2010, a cidade tinha cerca de 280 mil pessoas com 15 anos ou mais analfabetas (3,2% dessa população).
Um dos primeiros trabalhos da formação com os(as) professores(as) que chegam na unidade é romper com a visão de que o Cieja é uma escola, fazendo-os entender que o tempo, os espaços, a organização são diferentes em um Centro Integrado.
Como explica Sheila Ferreira Costa Coelho, assistente Pedagógica Educacional do Cieja Perus I:
Nós professores estamos formatados em uma forma escolar há séculos. E precisamos entender que a forma escolar exclui os estudantes, então se tentarmos repetir a mesma escola no Cieja, vamos colocar as pessoas pra fora de novo.”
Sheila Ferreira Costa Coelho
Compartilhar saberes
Bebendo de Paulo Freire, os conteúdos são trabalhados com os(as) educandos(as) por meio de tema da rodada. Essas rodadas costumam durar 27 dias de aula e englobam todas as áreas do conhecimento. Durante a pandemia, por exemplo, um dos temas tratados foi “Saúde e direito”.
Foto: arquivo pessoal
Para Sheila:
O tema gerador traz unidade pra escola, possibilitando que as(os) professoras(es), mesmo sendo de áreas de conhecimento diferentes, tenham um objeto de estudo em comum. Elas(es) têm que pesquisar como a área delas(es) e os conteúdos dialogam com esse tema – que sempre parte das dificuldades e necessidades trazidas pelas(os) estudantes.”
Sheila Ferreira Costa Coelho
Também são realizados círculos de cultura, momentos em que educadores(as) e educandos(as) compartilham e trocam seus diferentes saberes. “Tínhamos um círculo que era ‘costura e textura’, em que tivemos muitas mulheres que começaram a escrever bordando, porque elas sabem bordar. Elas bordavam as palavras do tema da rodada, que fazem sentido para a turma”, explica Sheila.
Produções escritas por estudantes do Cieja Perus I
A equipe de coordenação tem um trabalho intenso de estudo e reflexão sobre a prática, que demandam 11 horas de formação por semana na escola. Como a escola se organiza a partir das demandas do território, os encontros formativos e os temas estudados também partem da realidade e necessidade das(os) educadoras(es). Racismo estrutural, alfabetização de jovens e adultos e multilinguismos são alguns dos temas trabalhados no passado.
Com a pandemia e a necessidade de trabalhar remotamente, as(os) educadoras(es) se organizaram em grupos de trabalho, o que permitiu que eles(as) continuassem estudando diversas temáticas em diferentes horários.
Como quase 60% das(os) alunas(os) são haitianas(os), nós temos um GT de cultura haitiana. Criamos um GT Educomunicação, em que as(os) professoras(es) com mais habilidades com as linguagens tecnológicas se reúnem para pensar como fazer as lives, o melhor formato etc. Por causa da pandemia, também estudamos a questão do acesso à saúde. Direitos trabalhistas, racismo, questões de gênero também são temas recorrentes.”
Sheila Ferreira Costa Coelho
A formação dos(as) educadores(as) é, assim, essencial para que se garanta uma prática libertadora. “Ensinar a ler e escrever numa perspectiva freiriana demanda muito esforço, muito estudo, muita ação, reflexão sobre a ação e reformulação do que fazemos”, diz Iraci.
Atividade no Cieja Perus I
Para Sheila, a concepção freiriana que norteia o trabalho do Cieja é o que garante o bom trabalho e acolhimento dos(as) educandos(as):
Partimos da realidade das(dos) alunas(os), da escuta atenta, de entender que o ler e escrever não é só codificar e decodificar palavras. É fazer a leitura do território e saber se entender como agente de transformação daquele espaço ou comunidade.
Além do CIEJA Perus I, há outros 15 Centros Integrados espalhados pelos mais diferentes cantos da capital paulista, que somam cerca de 10 mil estudantes. A história dessas unidades é contada no livro CIEJAs na cidade de São Paulo: identidades, culturas e histórias, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.
A publicação traz um histórico de construção dos CIEJAs, que derivam dos antigos Centros Municipais de Ensino Supletivo (CEMES), os seus objetivos e o seu funcionamento. Por meio de textos escritos pelas equipes das unidades, o livro também fala sobre a forma como cada uma delas trabalha e dá um panorama da diversidade e da pluralidade de identidades, culturas e histórias que chegam aos CIEJAs com suas(seus) estudantes de diferentes origens, vivências, dificuldades, culturas etc.
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